Bruxas, Azeredo & o Eterno Retorno

6, agosto, 2011 1 comentário

 

por Lucas Félix

 

…não estava louco como contava a família e sim era o único que dispusera de lucidez bastante para vislumbrar a verdade de que também o tempo sofria tropeços e acidentes e podia, portanto, se estilhaçar e deixar num quarto uma fração eternizada.

- Gabriel García Marquéz, Cem Anos de Solidão, p. 331

 

Na escola, ainda crianças, aprendemos que o tempo é como um rio: vai fluindo, sempre na mesma direção, inexorável, não importando quantos resolvam banhar nele. Muito poético isso mas não é assim que vemos a coisa acontecer. O que chamamos de “história da evolução humana” nada mais é que a repetição dos mesmos erros e idiotices do passado com roupas modernas, mais coloridas e agradáveis aos olhos. Se o tempo já caminhou em direção ao futuro, ele tropeçou e onde caiu ficou.

No começo da atual Idade das Trevas a Mui Santa & Infalível Igreja Católica Apostólica Romana teve uma idéia simples para o combate de seus inimigos: se alguém desagradava os figurões católicos, bastava rotular o “alguém” como bruxo(a) e aí estava, este perderia todos os seus direitos, seria caçado, torturado até confessar o “crime” (com belíssimos requintes de tortura extrema) em nome da segurança social. Eis a “Santa” Inquisição. Perfeitamente justificada, no “argumento” deles, pois apenas um herege seria capaz de desencaminhar muitas almas, então melhor a tortura e o assassinato de um indivíduo que a corrupção de um grupo! Uma morte para evitar muitos outros problemas. Afinal, o grupo sempre é mais valioso que o indivíduo…

Mas voltemos agora à nossa própria Idade das Trevas. Anos atrás a igreja transformou deuses do paganismo em demônios e caçou os que (segundo eles) os adoravam. Hoje transformamos homens em demônios, da mesma forma. Eu gostaria de usar o terrorismo como um exemplo. A mídia (sempre ela, sempre ela!) com seu sensacionalismo infunde medo em toda a população, faz com que pensamos que um espectro assombra nossa sociedade perfeita, o espectro do terrorismo. E… uau! As pessoas ficam tão assustadas que ninguém critica o fato do governo interceptar e-mails, grampear telefones e redes de comunicação em geral, prender pessoas sem que tenham cometido crimes, torturar uns, assassinar outros…! Bem, a Lei quebrando a Lei. Uau de novo. Um exemplo recente: sabiam que o Osama Bin Laden só foi encontrado com a “ajuda” de um outro terrorista, que foi torturado diariamente até revelar sua localização? Claro… terroristas são monstros, não têm direitos, devem morrer para proteger o restante da sociedade, as pessoas “boas”…: nós (aliás, vocês. Eu não me acho tão bonzinho assim).

É só comigo ou isso lembra a Igreja Católica Medieval? “Passo 1 – Crie demônios. Passo 2 – Faça com que as pessoas temam tais demônios. Passo 3 – Diga que alguém é adorador dos tais demônios e ninguém se importará com a morte dessa pessoa…” Bem, julguem vocês se os terroristas merecem o tratamento que recebem, mas pensem numa coisa: será que TODOS os que foram acusados de terrorismo realmente mereciam a acusação? E os que tiveram e-mails lidos, conversações telefônicas monitoradas, apesar de inocentes, só para “prevenir”… que vocês acham disso?

Mas não precisamos olhar apenas para o plano físico das coisas para encontrar nossos demônios. No mundo virtual também temos os demônios que a mídia (sim, sempre ela, sempre ela!), com seu sensacionalismo (sim, ele também, ele também!) ajudou a criar. Temos os Crackers que desviam dinheiro para a Suíça (não, eu não vou dizer que políticos também fazem isso), e temos também o pervertido pedófilo. As pessoas têm medo de perder seu dinheiro suado, as pessoas têm mais medo ainda de ter os(as) pobres filhinhos(as) violentados por pedófilos. E o governo, é claro, não deixa de usar esse medo. A população tem medo da pedofilia? Então a população vai aplaudir se o governo começar a monitorar TODO o tráfego na internet em busca deles. Ué, eu não me importo de ter meus e-mails lidos, minhas conversas monitoradas, registros mantidos sobre o que eu faço na internet… é melhor que pedófilos e crackers soltos por aí, não é? Não é? Não é? Trocamos nossa privacidade, nossa liberdade de movimento, por segurança. Ora, ironicamente, fui um ex-presidente amerciano que afirmou que quem troca liberdade por segurança acaba sem nenhuma delas. Hmm…

Mas aqui mesmo no Brasil, em terras tupiniquins, temos os princípios da Caça às Bruxas Virtuais abrindo suas asinhas. Como os atenciosos de vocês podem ter percebido pelo título, refiro-me aqui ao projeto de alteração de lei do excelentíssimo e mui excelso deputado Azeredo. Este surge dos céus como um arcanjo de luz, livrando-nos dos terríveis crackers e às nossas criancinhas dos terríveis pedófilos! O seu projeto, apelidado carinhosamente como “AI-5 Digital” volta a circular no Congresso e todos estão muito contentes com isso. O projeto surge do inferno, novamente, graças a ataques de “hackers” (eles usaram este termo, peço que os hackers, que de fato merecem o nome, perdoem-me por citá-lo) aos sites do governo. Agora, os usuários da internet deverão ser identificados e virtualmente rastreados como bois net afora, terão seu movimento restrito. Ah, eu disse “terão”? Perdão, eu quis dizer TEREMOS. Pois somos NÓS os que sofreremos as consequências disso, você e eu srª Leitora, sr. Leitor. Vale isso para prender os tais pedófilos da internet? Bem, caso não saibam o próprio site SaferNet, considerado o mais importante como defesa contra a pedofilia, é contra o projeto. Interessante isso.

Eu não vou dizer que o projeto seja, em si, uma total porcaria (ou seja, não vou demonizá-lo, esse trabalho é deles). Por exemplo, ele criminaliza a invasão de sites e sistemas, atribuindo penas a tais crimes, bem como, também como exemplo, a criação e a divulgação de virus de computador por aí. Mas o bem que isso (inclusive a parte de caçar pedófilos, crackers, e etc) traz não compensa o que pagaremos em troca disso. Você, sr. Leitor, srª Leitora, gostaria de restringir seu direito de baixar arquivos (sim, download não “autorizado” de dados agora dá cadeia… isso inclui livros, músicas, filmes…)? Você quer registros (“logs”) de todos os seus acessos mantidos por três anos? Você confia TANTO assim em seu governo para entregar assim sua liberdade, numa linda bandeja? Ah, é apenas da internet que estamos falando? Mas liberdade não se mede, srª Leitora, sr. Leitor! Não tem isso de ser mais ou menos livre! Comece permitindo a invasão ao seu computador, como alguns já fazem com a própria mente, e daí para entregar toda a sua vida são apenas alguns passos. Os que trocam liberdade por segurança… lembram? Não? Voltem o texto e leiam de novo, e de novo, e de novo…

Bem, se vocês acham que vale a pena o que vão perder pelo que vão ganhar… sintam-se livres para fechar o presente texto e ir fazer algo mais interessante (o usuário aqui do lado, na lan house, sugeriu “ir assistir ‘Pânico’ e ‘bater uma’ pra Sabrina Sato ou ir ver um jogo de futebol” dentro de “coisas interessantes para fazer”). Os que não acharam tão legal a coisa… bem, ajudem. Ajudem a divulgar o projeto em diversas redes, busque informações, leia, reflita, tire suas conclusões (apresento, no fim do texto, alguns links). Ficou puto com o que leu e com suas conclusões? Bem, o Guilherme Varella, advogado do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), lançou uma campanha contra o projeto, com abaixo-assinado e que você pode acessar e, se achar justa a campanha, assinar clicando AQUI. Ah, e note que o próprio Idec é contra o projeto… wow, nunca pensei que os consumidores precisassem ser protegidos de seu próprio governo.

Querem ajudar ainda mais em relação ao surgimento de uma sociedade mais livre? É simples: Aprenda a pensar por si mesmo. Desenvolva um senso crítico. Não acredite em autoridades. Acredite em SEU julgamento… e para julgar algo você precisa de informações. Não é porque a Dilma diz que é verdade, não é porque EU digo que é verdade. Por isso… busquem, leiam, usem esse monte de massa cinzenta em sua cabeça. Exorcizem os demônios do governo (especialmente os que o governo cria) com uma boa dose de Pensamento Racional, de Lógica, de Crítica, de Dúvida, de Questionamento…

…ou podem seguir o conselho do carinha aqui do lado: vivam assombrados por demônios, sendo consolados pelas fantasias sexuais com a tal Sabrina Sato e o futebol do Domingo-nosso-de-cada-dia. (Amém!).

 

A mente é como um paraquedas: só funciona estando aberta.

- Frank Zappa



Leitura Recomendada:

Petição do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, instituição parceira da Avaaz (já postei o link acima, mas fica aqui também para facilitar):
http://www.idec.org.br/campanhas/facadiferenca.aspx?idc=24

Liberdade de internautas no Brasil pode estar com os dias contados (Portal Imprensa):
http://portalimprensa.uol.com.br/noticias/brasil/43707/liberdade+de+internautas+no+brasil+pode+estar+com+os+dias+contados/

Entenda o que é o marco civil da internet (UOL):
http://tecnologia.uol.com.br/ultimas-noticias/redacao/2010/06/09/entenda-o-que-e-o-marco-civil-da-internet.jhtm

‘AI-5 digital’ volta a circular no Congresso (Rede Brasil Atual) – também já postei no texto, mas fica aqui também para facilitar:
http://www.redebrasilatual.com.br/temas/tecnologia/2011/06/ai-5-digital-volta-a-circular-pelo-congresso

‘Ato Institucional nº5 (Wikipedia) – aqui explica o que foi o AI-5 Original, para quem não sabe. Isso vai ajudar a entender porque chamam o projeto do Dep. Azeredo de “AI-5 Digital”:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ato_Institucional_N%C3%BAmero_Cinco



P.S.: O presente texto pode ser divulgado livremente. Sintam-se livres para enviá-lo a quem quiserem, mostrarem a quem quiserem, imprimirem, usá-lo como papel-higiênico, enfim, façam dele o uso que acharem mais agradável. Ah, e o “Eterno Retorno” do título é um conceito de um certo filósofo bigodudo. Quem descobrir o porquê desse conceito entrar no título ganha um biscoito.

Google e sua cesta de aplicativos

14, dezembro, 2010 Sem comentários

Semana passada fui verificar umas configurações do meu domínio junto ao Google Apps e ao acessar a página inicial do gerenciador dei de cara com um texto em destaque que falava sobre as mudanças que entrariam em vigor no início de 2011. No corpo da mensagem haviam uns links explicativos e um deles me chamou a atenção mais do que os outros. Ele leva à uma página que consiste numa lista dos produtos que estariam disponíveis após as atualizações, sendo alguns novos, junto deles uma descrição breve das respectivas funcionalidades, bem como links para os documentos de Termos de Serviço e Central de Ajuda.

Fiquei curioso com alguns produtos dos quais sabia pouco ou nada a respeito, como por exemplo o Google PowerMeter, que de acordo com a descrição oficial permite “visualizar o consumo de energia de sua casa de qualquer lugar on-line“, e apesar de não estar disponível ainda no Brasil, existe uma API que abre grandes possibilidades para a utilização desse serviço aqui nas terras tupiniquins.

Existem muitos outros produtos interessantes, como o conhecido Google FriendConnect que permite “adicionar recursos sociais poderosos a seu website”, Google Health que permite “organizar seus registros médicos on-line”, Google Map Maker que permite “tornar-se um cidadão-cartógrafo e ajude a mapear seu mundo”, entre muitos outros aplicativos listados aqui.

Não há dúvidas da insegurança ou desconfiança que podemos sentir com tantos aplicativos interligados colhendo nossos dados, bem como o uso que a gigante poderia fazer dessas informações e acho até que isso renderia um bom post, mas por ora quero me concentrar no quanto esses recursos podem nos ser úteis no dia-a-dia num futuro não tão distante.

Esse post é somente introdutório e na medida que o senhor do tempo permitir pretendo aos poucos falar mais detalhadamente sobre esses aplicativos, tanto suas funcionalidades como implementações e usos de seus recursos públicos, com webservices, API´’s, etc, e até mesmo desenvolver e divulgar projetos utilizando tais recursos.

Como é meu segundo post no blog e “coincidentemente” meu segundo post sobre ou envolvendo o gigante colorido, já devem ter percebido a admiração que tenho pelos serviços e produtos da empresa, longe de ser um fanboy, pois existem tantas outras empresa talentosas pelo globo afora que eu escreveria (e pretendo) à respeito de seus produtos com prazer.

Por enquanto é isso terrícolas. Espero que gostem do post. Acompanhem sempre o blog para mais informações. Abraço forte procêis!

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Google Translator Toolkit e Projeto TraDuo

9, dezembro, 2010 Sem comentários

A alguns meses atrás, enquanto traduzia, com auxílio do Google Translator Toolkit, um texto qualquer para publicar num fórum do qual faço parte, comecei a pensar que alguém para ajudar na tradução e revisão do texto seria de grande valia. Não por coincidência, essa exemplar ferramenta do Google, assim como o Google Docs, permite a realização de edição colaborativa do documento, facilitando assim a interação e contribuição de informações e conhecimento na elaboração ou edição do texto.

Pois bem. Lá estava eu abrindo um tópico no fórum convocando indivíduos interessados em contribuir com a tradução, quando percebi que a ferramenta, apesar de ser de fácil utilização, não dava a intuição necessária para o melhor aproveitamento de seus recursos, e pior que isso, dependia do convite-permissão do dono da tradução para a entrada de novos colaboradores, tornado o processo de colaboração algo mais burocrático do que o usuário geralmente deseja. Fui então elaborar um tutorial sobre como proceder para ter acesso ao documento, bem como métodos de edição e controle da tradução por meio dos seus utilitários. No meio do processo de elaboração desse manual, me veio a idéia de desenvolver um sistema que se utilizaria dos recursos dessa ferramenta, por meio de uma API (que o Google geralmente fornece com seus sistemas), incrementando a usabilidade, utilidade e acesso aos recursos da mesma.

Depois de tanto procurar junto com uns conhecidos, eu não encontrei nenhuma solução satisfatória além do Translator Toolkit, que não possui necessariamente um frontend amigável e mais completo. Daí surgiu a idéia de criar algo bacana e lançar open-source pra geral usar.

Após algumas pesquisas e leituras, cheguei a alguns sites com conteúdo necessário para a execução desse pequeno projeto, como documentação da API, bibliotecas de código necessárias, frameworks possíveis e diversos guias e manuais a respeito, que apesar da quantidade relativamente escassa, era o suficiente para o que eu pretendia.

Pretendia inicialmente desenvolver um frontend onde o usuário inicialmente faria um cadastro para acessar o site. Após realizado o cadastro, o usuário logaria no sistema e no primeiro acesso seria direcionado para uma página de autenticação do Google Accounts, onde seria questionado se deseja liberar acesso do site atual à API do google, que se dá utilizando um token gerado pela atutenticação do usuário com sua conta no Google (Ufa!). O método descrito se chama OAuth e atualmente é o processo padrão para acessar diversos sistemas na internet com recursos abertos, como Google, Twitter, Facebook, etc. Feito isso, o usuário encontraria categorias diversas, o suficiente para enquadrar os diversos textos disponíveis para tradução, então acessaria uma categoria de sua preferência e logo após uma tradução dentro daquela categoria, e logo já estaria colaborando com a tradução.

- Mas espere cara pálida! Espeeere!! Você havia dito que é preciso ser convidado para cada tradução em separado pelos seus respectivos donos. Como é isso agora? – Simples! No momento em que o usuário clica na tradução, após uma confirmação simples ser apresentada, o email do mesmo é utilizado para realizar um cadastro automático para aquela tradução, utilizando requisição http para o Google autenticada pelo token do OAuth. – Mas pow, vai ser maior zona de usuários catando tradução. – Nope! A quantidade de usuários para cada tradução vai ser definida automaticamente à partir da quantidade de palavras contidas no texto, que é fornecida num XML de retorno pela API do Translator Toolkit, assim como diversas outras informações que podem ser conferidas aqui, juntamente com os procedimentos para realizar essas requisições e alterações.

Utilizando os mesmos procedimentos de requisição http para a API, é possível enviar dados diversos para o servidor do Google, inclusive fazer upload de arquivos para tradução, assim como o usuário faria na interface original do Translator Toolkit, eliminando assim a necessidade de se dirigir até lá para upar alguma tradução, mantendo o trabalho do usuário somente no âmbito do site e permitindo a automatização de geração de links e categorias para as traduções dentro do site.

Ao fim, será implementado um gerador de RSS para acompanhar o status das traduções, algum histórico de alterações e outras coisinhas que podem ser lidas neste doc.

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Ah! Não posso deixar de citar a imensa contribuição do meu colega Alan Willms nesse projeto. É um cara inteligentão, grande desenvolvedor, tradutor, cachimbeiro e macumbeiro nas horas vagas :P , entre outras qualidades, e que em nome de Adonai vai me ajudar a fumar…err, digo, estourar essa bomba. ‘-’

No mais é isso, personas. Aguardem mais notícias e atualizações desse projeto aqui no blog. Abraços!